Transistor de Potência TIP 107: Guia Completo de Funcionamento, "902"
O transistor TIP 107 é um componente de potência robusto e
versátil, um clássico da eletrônica de potência que equilibra um
ganho de corrente massivo com desafios inerentes de
gerenciamento térmico. Sua capacidade de controlar altas
correntes o tornou uma escolha padrão em aplicações exigentes,
como o acionamento de motores, solenoides e até mesmo em placas
de máquinas de pinball, consolidando sua reputação como uma
verdadeira "mula de carga". No entanto, apesar de sua
popularidade, existe uma confusão comum que o associa ao número
"902", levando muitos a procurarem por informações incorretas.
Este artigo servirá como um guia definitivo, explicando seu
funcionamento interno, como realizar testes passo a passo para
diagnosticar falhas e as causas de seus problemas mais comuns,
como o temido
curto-circuito.
1. O que é o Transistor TIP 107? Uma Análise Interna
Nesta seção, explicamos em detalhes a arquitetura e as
características fundamentais do TIP 107.
1.1. Arquitetura Darlington: Mais do que Apenas um
Transistor
O TIP 107 é um transistor de potência PNP com uma configuração Darlington monolítica. Essa estrutura não é apenas um transistor, mas um circuito
integrado em um único cristal de silício que integra dois
transistores em cascata, um diodo antiparalelo e resistores
internos. Cada um desses componentes tem uma função
crucial:
• Configuração Darlington: A conexão em cascata de dois transistores BJT (Bipolar
Junction Transistor) resulta em um ganho de corrente (hFE) excepcionalmente alto. Isso permite que uma corrente muito
pequena na base controle uma corrente muito grande entre o
coletor e o emissor.
• Resistores Internos (R1 e R2): Dois resistores internos otimizam o desempenho. R1 (com
valores típicos entre 8 e 10 kΩ) fornece um caminho para a
corrente de fuga do primeiro transistor, melhorando a
estabilidade térmica e evitando acionamentos indesejados. R2
(com valores típicos entre 120 Ω e 0,6 kΩ) acelera o tempo de
desligamento, mitigando o efeito de "cauda de corrente" comum em
Darlingtons.
• Diodo Antiparalelo
(Coletor-Emissor): Integrado entre os pinos do coletor e do emissor, este
diodo é crucial para proteger o transistor contra picos de
tensão reversa. Esses picos são gerados por cargas indutivas
(como motores e solenoides) no momento em que são desligadas, e
o diodo os dissipa de forma segura.
1.2. Principais Características Elétricas
As especificações do TIP 107 o definem como um componente de
alta potência. A tabela abaixo resume seus valores máximos
nominais.
|
Parâmetro
|
Valor Máximo
|
|---|---|
|
Tensão Coletor-Emissor (VCEO)
|
100 V
|
|
Corrente de Coletor Contínua (IC)
|
8 A
|
|
Corrente de Coletor de Pico (ICM)
|
15 A
|
|
Ganho de Corrente DC (hFE)
|
Mínimo de 1000 (para IC de 3 A)
|
|
Dissipação de Potência Total (TC≤25∘C)
|
80 W
|
|
Tensão de Saturação (VCE(sat))
|
2,5 V (para IC de 8 A)
|
Apesar do ganho de corrente (hFE) ser muito alto, uma desvantagem da arquitetura Darlington é a
tensão de saturação (VCE(sat)) elevada. Com 2,5V de queda de tensão ao conduzir 8A, o
transistor dissipa 20W de potência desperdiçada (P = V x I) na forma de calor, energia que não contribui
para o trabalho realizado pela carga. Isso reforça a necessidade
crítica de um bom gerenciamento térmico, geralmente com o uso de
um
dissipador de calor.
2. Decifrando a Conexão com o "902": Um Erro Comum
Muitos técnicos e hobbistas buscam por "TIP 107 902", mas essa
associação é baseada em uma confusão. Vamos esclarecer de onde
ela vem.
2.1. O "902" Não Faz Parte do Nome
O número "902" não faz parte da designação oficial do
transistor TIP 107. A associação surge de três fontes
prováveis:
• O Equivalente Europeu (BD 902): O transistor BD 902 é um Darlington PNP com características elétricas muito
similares às do TIP 107, sendo funcionalmente intercambiável em
muitas aplicações. A necessidade de substituir um BD 902 por um
TIP 107 em equipamentos antigos é uma das principais causas da
confusão.
• O Transistor Incompatível (NZT902): O NZT902 é um transistor NPN (polaridade oposta), não possui configuração Darlington e
vem em um encapsulamento de montagem em superfície (SMT). Ele é
totalmente incompatível com o TIP 107. O número "902" neste caso
é o seu código de dispositivo.
• Códigos de Lote e Fabricação: Em muitos componentes eletrônicos, números como "902" são
impressos para indicar a data de fabricação ou o lote de
produção, não fazendo parte do nome do modelo.
2.2. Tabela Comparativa: TIP 107 vs. BD 902 vs. NZT902
Para ilustrar as diferenças, a tabela abaixo compara os três
componentes.
|
Atributo
|
TIP 107 (Referência)
|
BD 902 (Equivalente)
|
NZT902 (Incompatível)
|
|---|---|---|---|
|
Polaridade
|
PNP
|
PNP
|
NPN
|
|
Configuração
|
Darlington
|
Darlington
|
BJT Simples
|
|
Encapsulamento
|
TO-220
|
TO-220
|
SOT-223 (SMT)
|
|
VCEO |
100 V
|
100 V
|
90 V
|
|
IC (Contínuo)
|
8 A
|
8 A
|
3 A
|
|
Dissipação de Potência
|
80 W
|
70 W
|
1 W
|
3. Guia Prático: Como Testar um Transistor TIP 107
Diagnosticar um TIP 107 fora do circuito é um processo simples
que ajuda a identificar rapidamente se o componente está
funcional ou danificado.
Ferramenta Necessária:
Multímetro Digital
(Modo Diodo/Continuidade)
Siga estes passos com o multímetro configurado no modo de teste
de diodo:
1. Teste da Junção Base-Emissor:
◦ Ação: Coloque a ponta de prova negativa (-) no pino da Base (pino 1) e a ponta de prova positiva (+) no pino do Emissor (pino 3).
◦ Resultado Esperado: O multímetro deve exibir uma queda de tensão
entre 1,1V e 1,6V. Este valor é mais alto que o de um transistor BJT simples
(~0,7V) porque representa a soma da queda de tensão das duas
junções base-emissor em cascata (VBE1 + VBE2) na estrutura
Darlington, além da influência da rede de resistores
internos.
2. Teste da Junção Base-Coletor:
◦ Ação: Mantenha a ponta de prova negativa (-) na Base (pino 1) e mova a ponta de prova positiva (+) para o pino do Coletor (pino 2 e aba metálica).
◦ Resultado Esperado: O multímetro deve indicar condução, mostrando uma queda
de tensão dentro da mesma faixa esperada para a junção base-emissor, confirmando a integridade da segunda junção.
3. Teste do Diodo de Proteção Interno:
◦ Ação: Coloque a ponta de prova negativa (-) no pino do Coletor (pino 2) e a ponta de prova positiva (+) no pino do Emissor (pino 3).
◦ Resultado Esperado: Deve-se observar uma leitura entre 0,5V e 0,8V. Este valor corresponde à medição do diodo antiparalelo
integrado.
4. Verificação Final de Curto-Circuito:
◦ Ação: Teste a resistência entre o Coletor (pino 2) e o Emissor (pino 3) em ambas as direções (invertendo as pontas de
prova).
◦ Resultado Esperado: Com exceção da medição do diodo interno no passo 3,
qualquer outra leitura de baixa resistência ou um apito de
continuidade do multímetro indica que o transistor está
em curto-circuito e deve ser substituído.
Interpretando Resultados Anormais
• Leitura "OL" (Open Loop) em Todas as Junções: Indica uma falha interna, provavelmente uma ligação de
fio rompida por estresse mecânico ou térmico. O transistor está
aberto e inutilizável.
• Queda de Tensão Anormalmente Baixa (e.g., < 0.4V) no Diodo
Interno: Sugere que o diodo de proteção foi danificado por um pico
de tensão severo, comprometendo a capacidade do transistor de
lidar com cargas indutivas.
• Queda de Tensão Invertida nas Junções: Se qualquer junção (B-E ou B-C) conduzir com as pontas de
prova invertidas (positivo na base e negativo no
emissor/coletor), o transistor está danificado e não deve ser
utilizado.
4. Análise de Falha: Onde e Por Que o TIP 107 Entra em Curto?
A falha catastrófica mais comum do TIP 107 é um curto-circuito
permanente entre o coletor e o emissor. A causa raiz é, quase
invariavelmente, a sobrecarga térmica que leva a um evento
chamado Segunda Ruptura (Secondary Breakdown).
Este fenômeno ocorre quando os limites da Área de Operação Segura (SOA - Safe Operating Area) do transistor são excedidos. A SOA define as combinações
de tensão e corrente que o componente pode suportar simultaneamente sem se autodestruir. Operar fora da SOA — por exemplo, ao
aplicar alta tensão e alta corrente ao mesmo tempo — força a
corrente a se concentrar em um ponto minúsculo do cristal de
silício.
Essa concentração cria um "ponto quente" (hotspot) que
superaquece quase instantaneamente e derrete o material
semicondutor, formando um caminho de baixa resistência
permanente entre o coletor e o emissor. O resultado é um
curto-circuito irreversível.
É aqui que o dissipador de calor se torna absolutamente crítico. O seu único propósito é
extrair calor da junção de silício rápido o suficiente para
manter o transistor dentro da sua SOA em condições de alta potência, prevenindo a
segunda ruptura. Os números são claros:
• Com um dissipador ideal (mantendo a carcaça a 25°C), o TIP 107
pode dissipar 80 W.
• Sem dissipador, em temperatura ambiente, sua capacidade de
dissipação cai para apenas 2 W.
Qualquer aplicação que exija mais de 2W de dissipação
obrigatoriamente necessita de um dissipador de calor para evitar
a falha do componente.
Conclusão: O Legado do TIP 107 na Eletrônica de Potência
O TIP 107 continua a ser um componente poderoso e confiável,
cuja longevidade em um projeto depende fundamentalmente de um
bom gerenciamento térmico. A confusão com o número "902" é
facilmente esclarecida ao entender que se refere a componentes
diferentes, sejam eles equivalentes como o BD 902 ou
incompatíveis como o NZT902. Ao seguir as diretrizes de teste
para garantir seu bom funcionamento e, mais importante, ao
respeitar seus limites operacionais, o TIP 107 continuará a ser
uma solução de eleição para engenheiros, técnicos e hobbistas,
graças à sua inigualável combinação de baixo custo, robustez e
facilidade de acionamento.
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